segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Órgão da Igreja de Nossa Senhora das Angústias (Ilha do Faial)

Entre os oito anteriormente pertencentes à ilha do Faial (um dos quais irremediavelmente destruído num incêndio, o outro num sismo) está o órgão da Igreja de Nossa Senhora das Angústias. Este instrumento é, nas palavras do mestre-organeiro Dinarte Machado, um raro exemplar da organaria portuguesa, pois do mesmo construtor apenas se tem conhecimento de mais outro, que se encontra na Igreja Matriz de Oeiras (Lisboa).

Este é, sem dúvida, um órgão com uma curiosíssima história. Construído em 1805 por Joaquim António Peres Fontanes, que aprendeu do pai a arte da organaria, foi colocado no agora extinto Convento da Glória (do qual apenas restou a Torre do Relógio), onde permaneceu por cerca de 69 anos. Decorrido esse tempo, o instrumento teve de ser retirado do templo, que iria ser demolido para se utilizar a pedra na construção do Hospital Walter Bensaúde. A pedido do Padre António de Oliveira Morais, então pároco na Igreja das Angústias, e por influência de Felisberto Vieira de Bem, vice-vigário da mesma paróquia, se obteve a permissão do Governo para que o órgão fosse transferido para a “actual” localização, a 30 de Setembro de 1874. Lá se abriu um grande arco na parede sul da igreja, sob a ordem do mesmo Padre Morais, para se construir uma capela lateral (coreto baixo, segundo o estilo da época) que o iria receber, tendo-o montado Tomé Gregório de Lacerda, organeiro amador da ilha de São Jorge.

Fig. 1 - A antiga localização do órgão, na Capela

Treze anos depois, houve uma tentativa de reconstrução da parte de João de Deus Teixeira, que apenas conseguiu reconstituir três registos. Diversas outras intervenções foram tentadas no instrumento, como em 1904, por alguém das oficinas de António Xavier Machado e Cerveira, com peças oriundas de uma fábrica em New Bedford (USA). Mas só em 1915 se pôs termo a todo este ciclo de experiências, com a reconstrução do organeiro faialense Manuel de Serpa da Silva.

Mais tarde, nos anos quarenta do século passado, o Padre António Silveira de Medeiros resolve criar uma capela dedicada a Nossa Senhora de Fátima no lugar onde estava alojado o órgão, transferindo-o para o coro alto. Esta Capela foi removida em 2004 e fechado o grande arco que a albergava, por razões de segurança (tinha ocorrido um evento sísmico em 1998), ficando na parede a moldura em basalto a marcar o lugar do instrumento.


Fig. 2 - A "actual" localização do órgão, no Coro Alto (de momento encontra-se nas oficinas de Dinarte Machado)

Um novo restauro é ponderado em 1997, dado ao “estado precário em que este instrumento se encontra”(¹) pela Capela da Paróquia e pelo seu regente de então, o Engenheiro Norberto Oliveira, que formaram uma Comissão Pró-Restauro presidida pelo Monsenhor Júlio da Rosa, dirigindo-se assim ao Mestre-Organeiro Dinarte Machado. Esta intervenção teve início a 10 de Junho desse ano, estando inicialmente prevista a sua conclusão a 30 de Outubro do ano seguinte. Decorria tudo dentro da normalidade, quando um terramoto a 9 de Julho de 1998 tornou impossível o regresso do órgão para a igreja três meses depois, obrigando a suspender a operação.

A 10 de Janeiro de 2005, quatro meses antes do tempo previsto para o término da reabilitação do templo, foi remetida uma carta ao mestre organeiro para que fosse retomada a intervenção de restauro. É então prosseguido e, a 26 de Junho de 2006, o responsável pela operação actualiza o orçamento para 58 360,00 Euros, tendo na altura já sido pagos 14 963,94 Euros. Na mesma carta, Dinarte Machado refere: “Todos os trabalhos de restauro das madeiras referente aos someiros, tampas e tabuões, já estão concluídos desde 1998. Todavia depois do terramoto (...) não pudemos continuar o restauro com a aplicação das peles novas, uma vez que não sabíamos, para quando a montagem deste instrumento”(²) e aponta como prazo de conclusão o ano de 2008. Mas, na terceira semana de Dezembro de 2007, é convocada uma reunião em que o organeiro propõe um aumento do orçamento e do prazo estabelecido.

Um pouco mais tarde, no último trimestre do ano passado, se tomou conhecimento de que as obras de restauro já se encontram concluídas. Resta talvez esperar pela verba necessária para o transporte do instrumento ou pelo restauro da caixa do mesmo, para que seja inaugurado durante as Festividades de Nossa Senhora das Angústias, tal como aspira o Mons. Júlio da Rosa.


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No interior do secreto, há a seguinte inscrição:

« Este Órgão foi construído em Lisboa no ano de 1805, há 151 anos, 1956; e foi mudado este Órgão do Convento da Glória para esta Igreja da Senhora das Angústias a 30 de Septembro do anno de 1874.

Thome Gregório de Lacerda o armou. Felizberto Vieira de Bem (Cónego) o alcançou do extinto convento da Glória quando Vice-Vigário nesta Igreja das Angústias.

Foi reconstruído pelo curiozo João de Deus Teixeira no anno de 1887 pela miseravel quantia de 179$000 reis tendo apenas três registos no seu lugar e estes mesmos incompletos o mais achava-se a monte em sima dos fols a maior parte esmigalhado. Era então vigário o Rev.mo Ant. De Oliveira Moraes que teve a coragem de não oferecer de gratificação ao reconstruidor um pataco para cigarros. 28 de Julho 1887.



A expensas do benemérito sacerdote Vigário José Gonçalves da Silveira foi este órgão reconstruído no anno de 1915 pelo mui habil organeiro Manuel de Serpa da Silva, sendo então Parocho desta freguesia de N. Sr.ª das Angústias o Pe. Raul Camacho. »


A par desta inscrição, encontra-se também a do construtor original:

« Este órgão foi construído por Joaquim António Peres Fontanes no ano de 1805 em Lx. »


Informação Técnica

- (Anterior) Localização (na Igreja): Coro Alto
- Estado: Não Funcional
- Tipo: Órgão Ibérico, de um manual
- Organeiro: Joaquim António Peres Fontanes (Filho)
- Ano da Construção: 1805, em Lisboa
- Teclado: Dividido.
- Registação: Não Disponível

- Intervenções:
* Construção – em 1805, por Joaquim António Peres Fontanes
* Mudança de Edifício – 30 de Setembro de 1874, armado por Tomé Gregório de Lacerda
* Tentativa de reconstrução – concluída a 28 de Julho de 1887, por João de Deus Teixeira
* Intervenção – em 1904, por organeiro das oficinas de António Xavier Machado e Cerveira
* Reconstrução – em 1915, por Manuel Serpa da Silva
* Mudança do coro baixo para o coro alto – anos 40 do séc. XX, a mando do Pe. António Silveira de Medeiros
* Restauro – início a 10 de Junho de 1997, por Manuel Dinarte Machado
* Desmontagem – 07 e 08 de Julho de 1997
* Transporte para as oficinas – 04 de Setembro de 1997
* Paragem do Restauro – Julho de 1998, devido a episódio sísmico
* Novo Arranque do Restauro – Junho de 2006



Organistas nesta Igreja:

- Hildeberta Silva
- Luís Macedo - Titular (até 2007)
- Tiago Silva - 2º Organista (2000-2007)
- José Mário Lopes - 2º Organista (1996-2007); Titular (2007-actualidade)



A Igreja de Nossa Senhora das Angústias


A Igreja de Nossa Senhora das Angústias situa-se no extremo sul da cidade da Horta, ilha do Faial, sendo hoje a paroquial da populosa freguesia urbana das Angústias. Teve a sua origem numa ermida dedicada a Santa Cruz e fundada no século XV pela capitão Joss van Hurtere.

Em 1640, segundo frei Diogo das Chagas, parece que a ermida estava muito arruinada, até que foi novamente edificada e com a mesma invocação, por mandado do bispo D. frei Lourenço de Castro, datado de 30 de Agosto de 1675, transferindo-se para o altar-mór desse novo templo as cinzas da esposa do capitão do donatário, D. Beatriz de Macedo.
Parece, no entanto, que não obstante tais obras, outras logo se iniciaram, porque a 28 de Novembro de 1684 a igreja era dedicada a Nossa Senhora das Angústias e elevada a paroquial e, em 1688, após a visita pastoral do Bispo D. Clemente Vieira, o monarca mandava dar a quantia de 572$000 reis (moeda da altura) para as obras e os ornamentos da igreja.

Passados pouco mais de cem anos, em 1800, novas obras se levaram a efeito, desta vez para erguer o novo e actual edifício, obras muito demoradas porquanto só em 1861 a igreja foi dada por concluída, graças a uma subscrição promovida pela Junta de Paróquia, respectiva.

Com o sismo de 9 de Julho de 1998, o templo ficou danificado, tendo sido concluído o seu restauro em 2005 e reinaugurado em Maio de 2006.



Descrição:
Igreja de uma só nave com torres sineiras a ladear a fachada.

A parte central da fachada principal (correspondente ao corpo da nave), de dois pisos, tem três vãos por piso com arcos de volta perfeita e é rematada por um grande frontão recortado com arranques espiralados. Ao centro do frontão encontra-se um elemento decorativo em relevo, representando o coração de Jesus, envolvido por uma moldura circular.

As torres sineiras, de três pisos, têm um vão por piso, também em arco de volta perfeita, sendo os vãos do último piso os dos sinos. As torres são rematadas por cornijas e encimadas por coruchéus piramidais de base octogonal. Duas grandes cornijas na separação dos pisos envolvem a fachada e as torres.

A capela-mor, rectangular, abre para a nave através de um arco triunfal de volta inteira. A meio da nave, do lado da epístola, abre-se uma grande capela quase tão profunda como a capela-mor.

O imóvel é construído em alvenaria de pedra rebocada e pintada de branco, excepto o soco, os cunhais, as molduras e os ornamentos que são em cantaria à vista.


Localização

Rua Vasco da Gama - Horta
9900-018 HORTA

Ilha: Faial
Distrito: Horta
Concelho: Horta
Freguesia: Angústias
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Fontes:

- Fotografias:
* Fig 2 - Tirada no Local
* Outras - Carlos Matos (Paróquia das Angústias)


- Informações sobre o órgão:
* Artigo “O Nosso Órgão de Joaquim António Peres Fontanes” - Autor: Mons. Júlio da Rosa. Jornal “A Vida” nº545 – Paróquia de Nossa Senhora das Angústias, Outubro de 2006

* Artigo “José da Silva Morais” - Autor: Mons. Júlio da Rosa.
Jornal “A Vida” nº567 – Paróquia de Nossa Senhora das Angústias, Março de 2009

* José Mário Lopes

(¹) Manuel Dinarte Machado, em correspondência dirigida ao Mons. Júlio da Rosa, a 06/07/1997 (extraída da primeira fonte acima referida)

(2) Manuel Dinarte Machado, em correspondência dirigida ao Mons. Júlio da Rosa, a 26/06/2006 (extraída da primeira fonte acima referida)


- Informações sobre os organistas:
* Recolhidas no Local

- Informações sobre a Igreja:

* Wikipédia

* Inventário do Património Imóvel dos Açores

* LifeCooler

* Artigo "O Nosso Órgão de Joaquim António Peres Fontanes" - Autor: Mons. Júlio da Rosa. Jornal "A Vida" nº545 - Paróquia de Nossa Senhora das Angústias, Outubro de 2006

6 comentários:

Luís Henriques disse...

Há um pequeno pormenor que me suscitou alguma dúvida quanto a este artigo: o facto de referires uma intervenção de 1904 de António Xavier Machado e Cerveira. Machado e Cerveira morre em 14 de Setembro de 1828. Contudo,a sua casa de organaria, pela sua reputação e fama granjeada é continuada por todo o séc. XIX, pelos filhos e netos. Não poderás estar a fazer confusão entre organeiro e oficina de organaria?

Eco... disse...

Pois, desconhecia a data de óbito desse organeiro. Retirei a informação do jornal da paróquia das Angústias, em que isso vinha mencionado numa conversa telefónica entre o Mons. Júlio da Rosa e o Dinarte (o Mons. tinha tirado notas da conversa). Ele já tem uma certa idade e pode ter percebido mal.

Eco... disse...

Acabo de corrigir.

Obrigada pela observação!

Luís Henriques disse...

Conversas telefónicas... é possível. Contudo, é possível que a casa Machado e Cerveira ainda estivesse em actividade em 1904. Mas quanto a isso só o D.M. poderá responder. Tal facto seria um milagre pois no séc XIX português assassinou-se a música que tinha alguma qualidade...
A ver.

eco... disse...

O D.M.?

Luís Henriques disse...

D.M. = Dinarte Machado :)